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Coluna de Cinema

Triste Bahia, ó quão dessemelhante...
Triste Bahia, ó quão dessemelhante...

Cinema no Brasil
Um trabalho de Sísifo.

No começo era tudo um sonho, Hollywood ainda não havia dominado de todo o mercado cinematográfico brasileiro, ainda que já botasse as suas manguinhas de fora e começasse a ditar modismos por este Brasilzão a fora. A magia e o magnetismo se espalhavam e, sorrateiramente, se alastravam pelos rincões tupiniquins.
Em quase toda cidadezinha do interior de médio porte havia uma, duas ou mais salas de cinema, cada uma mais chique do que a outra, um convite ao sonho e ao glamour.
Logo na entrada das salas de espetáculos, um Show de luzes, brilhos e encantamento, a cidade saía das trevas, a sensação era de que a maioria dos espectadores fazia parte do elenco de estrelas : nós, os tabaréus, todos enfatiotados, nos trinques: janotas mesmo.
Os exibidores caprichavam na decoração do cinema, tudo o mais requintado possível : móveis neoclássicos, cortinas e tapetes de veludo, carpetes e espelhos do chão ao teto, colunas greco-romanas, corrimãos dourados, lustres de cristais ; sem esquecer o figurino dos funcionários; o porteiro então nem se fala, tão elegante quanto qualquer astro estrangeiro ; a mocinha da Bombonierre sempre muito bem maquiada e vestida com o requinte das divas européias.
Assistir à soirrée aos domingos era como ir a uma festa de gala, muito mais engalanada do que qualquer acontecimento cívico da cidade.
Os homens com os seus ternos à la Alain Delon ou Humphrey Bogart e as mulheres à la Ingrid Bergman ou Sophia Loren, sacolejando as jóias e espargindo o aroma e o charme das estrelas.
Nas matinês, os jovens e as crianças vendiam e trocavam revistas em quadrinhos nas portas dos cinemas, enquanto esperavam, ansiosamente, a estréia do faroeste, devidamente, acompanhado do capítulo de um seriado: O Sombra, Zorro, Tarzan, Indiana Jones, Roy Rogers, Buck Jones etc.
Em meados do século XX em qualquer cafundó do Brasil, por mais distante e menor que fosse, havia sempre um cineminha, ainda que improvisado em clubes, parques, matadouros, ginásios ou até mesmo em praça pública. Os espectadores levavam as suas cadeiras, o patrono da exibição transportava, em lombo de burro, em carroças, em bicicletas ou em paus-de-arara mesmo, as películas a serem exibidas.
Exibia-se toda e qualquer fita que estivesse à disposição, fosse muda, falada ou legendada, claro que a preferência recaia por aquelas de fácil entendimento.
Em Vitória da Conquista, Bahia (terra natal de Glauber Rocha e deste cinéfilo inveterado), havia três cinemas : O Cine Conquista, o mais antigo e considerado o principal, no qual eram exibidos os filmes americanos, os dramas da Vera Cruz e as chanchadas da Atlântida ; no segundo, o Cine Glória, a platéia se deliciava com as comédias, dramas e melodramas italianos, espanhóis e mexicanos ; e o terceiro, o Cine Ritz, pequeno, aconchegante, decoração em estilo Art Nouveau, e o chique do chique, tinha até camarote; era o que hoje se costuma chamar de Cinema de Arte.
A programação do Cine Ritz era um primor da Sétima Arte: Nouvelle Vague, Neo-Realismo, Surrealismo, Suspense, Noir, musicais: "Toma chocolat? Paga lo que debe! Toma chocolate? Paga lo que bebe!" e todos os filmes brasileiros importantes, inclusive, os filmes do chamado Cinema Novo.
Na cidade do São Salvador havia cinemas quase na mesma proporção das igrejas católicas de então, em muitos dos quais se exibiam três filmes seguidos ao preço de um, ingressos a preços, de fato, populares.
Era cinema que não acabava mais, em quase todos os becos da cidade havia uma sala de cinema, cada uma mais luxuosa do que a outra, em todos os bairros e subúrbios da cidade havia muitos cinemas, todos, destruídos pela especulação imobiliária, pela mais-valia da fé ou pelo abandono e descaso das autoridades para com o Patrimônio Histórico e Cultural da Bahia.
Pois bem, sábado à tarde, estava eu na fila de um desses Multiplex da vida, de preços extorsivos, nostalgicamente, relembrando os áureos tempos quando o cinema era considerado a Oitava Maravilha do Mundo. Pensava nos caminhos pelos quais enveredara o mesmo e , em especial, o Cinema Brasileiro, recordava com orgulho os filmes do Cinema Baiano : Barravento, A Grande Feira, Tocaia no Asfalto, Sol Sobre a Lama, Deus e o Diabo na Terra do Sol, O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro e tantos outros excelentes filmes nacionais : Rio Quarenta Graus, Os fuzis, Assalto ao Trem Pagador, O Bandido da Luz Vermelha, Vidas Secas, Terra em Transe, enfim; uma lista imensa de filmes nacionais inesquecíveis.
Distraído estava, na fila de um desses fast-foods cinematográficos modernosos de shopping, pensando nos rumos díspares que o fazer e a apreciação cinematográfica no Brasil haviam tomado, quando encontrei um conhecido de longas datas, uma figura maravilhosa, gente finíssima, coincidência das coincidências : Cineasta Baiano.
Conhecera - o nos primórdios da Jornada de Cinema da Bahia, exibindo os seus primeiros filmes, feitos em 8mm e médias metragens. Falou-me do seu primeiro longa-metragem, longa mesmo, há uma cara que lutava para a finalização da película : patrocínio, ajuda estatal, verba curta, Pólo Cinematográfico da Bahia, Fundação Cultural, Lei do áudio-visual, Ancine, a famigerada Lei Rouanet, prestação de contas, contar o incontável, enfim, toda essa encheção de saco, mesquinharia e mediocridade dos burocratas de plantão, mas, tudo bem, tudo em cima, o filme já estava quase pronto.
Hesitei em lhe perguntar quanto tempo de trabalho, diante da sua felicidade. Pouco, muito pouco, depois, festivais, distribuição, divulgação, encarar a falta de cineclubes e cinemas de bairro, uma vez que, a grande maioria estava sendo transformada em templos evangélicos, bingos, delicatesses e outras ingrizilhas mais. No exíguo tempo do nosso encontro, ele ia assistir a um filme do Almodóvar, eu, um desses que ao sair do cinema já esquecemos, não deu para perceber nele a ansiedade da longa espera pela conclusão do filme, era visível o brilho nos olhos e uma alegria contagiante, somente visto na irreverência e empolgação das crianças, muito embora fosse assistir a um melodrama espanhol com seus bolerões e passionalidades. Despedimo-nos, e entrei na sala de cinema (ou seria lanchonete?) com o nome do filme dele na cabeça. Enquanto a sessão não começava, um jovem casal ao meu lado entupia-se com um saco de hambúrgueres, um saco de batatas fritas, dois copos de um litro de refrigerantes, dois sundaes e um balde de pipocas de quebra (piquenique, talvez). Saí do cinema do shopping ainda meio-surdo do Dolby Sistems (otorrino neles, help!) e enfastiado com o cheiro de gordura do cinema, precisava ir para casa, ficar em silêncio.
No outro dia, domingo chuvoso, em casa, sem os ruídos das pipocas, celulares, tagarelas e outros dissabores das maravilhas modernas, com a concentração necessária para a apreciação fílmica (como diria les Cahiers de Cinemás), assistindo ao Canal Brasil, um estranho desconforto ganha corpo, vendo a batalha dos cineastas brasileiros para produzir, dirigir, editar, montar, exibir, distribuir e divulgar os seus filmes.
Algum tempo depois, li uma entrevista do meu amigo cineasta ao jornal “A Tarde”, e em determinado trecho ele se dizia desgostoso com o seu ofício e com todo o desgaste que é fazer cinema no Brasil e na Bahia, principalmente, mesmo tendo sido os seus filmes, premiados nos Festivais de Gramado e Brasília, respectivamente.
- Bahia, Brasil, terras mães e madrastas, filosofaria o nobre leitor ou leitora coçando as partes...
Desandei a divagar sobre os caminhos e descaminhos do fazer cinema em terras tupiniquins. Briga-se muito pela realização de um filme no Brasil.
Penso que o esforço do cineasta brasileiro só pode ser comparado ao trabalho de Sísifo, aquele a quem Zeus como castigo obrigou a rolar uma enorme pedra montanha acima, e toda vez ao chegar ao cume a pedra rolava de volta e ele tinha que recomeçar tudo de novo. O trabalho do cineasta brasileiro em muito se assemelha a esse mito. Um verdadeiro trabalho de Sísifo.
Sempre me impressionou o talento, a teimosia, a paciência e a persistência do cineasta brasileiro. Na época do Cinema Novo, aqui mesmo na Bahia, Roberto Pires, cineasta baiano, da turma de Glauber, contava que era comum na hora de montar e editar os seus filmes, ainda na moviola, cortar a fita, emendar com esparadrapo ou similar e mandar bala, feitos literalmente a mão, no improviso.
Que oficio é esse, no qual o indivíduo é capaz de dar nó em pingo d’água, abdicar de “ene” prazeres, se endividar todo, queimar pestanas e mantras, ficar sem comer, desequilibrar o Yn e o Yang, às vezes se desfazer de todos os seus pertences, apelar para todos os santos, todos os orixás, anjos e demônios, engolir sapos de todos os tamanhos para fazer vingar as suas idéias? Que teimosia é essa que leva o artista a consumir, meses, anos e até mesmo décadas da sua existência para contar uma simples história? Joga-se em tal empreitada de maneira suicida, sem rede, num vôo cego, obsessivo, beirando às raias da loucura, fazendo pacto com Deus e o Diabo, lutando contra tudo e contra todos, principalmente, contra a toda poderosa indústria americana de entretenimento : Hollywood.
- Também não é assim, injustiça para com os nossos irmãos do Norte, dirão uns.
- Isso é Nacionalismo exacerbado, dirão outros.
Os mais novos terão como desculpa o que eles chamam, carinhosamente, de “Globalização”, há pouco, mais conhecido como “Imperialismo” mesmo.
Fazer cinema no Brasil, país de Terceiro Mundo cambaleando sabe lá Deus para que colocação. Teimosia braba! Fazer cinema custa caro, demanda tempo, muito dinheiro e muito esforço. Nenhuma outra arte demanda mais esforços e recursos do que o cinema. Arte industrial e, essencialmente, de equipe, requer materiais de primeira linha, tecnologia avançada, investimentos vultosos e profissionais capacitados nas mais variadas áreas das ciências exatas, das artes e da cultura.
No Brasil, mesmo nos grandes centros, apesar do cinema ser uma indústria, ele ainda é feito de maneira artesanal, uma ação entre amigos, apela-se para as amizades, o fazer cinema, quase sempre, é um acordo entre cavalheiros, entre compadres, a não ser que o cineasta tenha nascido em berço de ouro, não é o caso da grande maioria. Depende-se muito da boa ou má vontade do outro, da equipe, as dificuldades são muitas, falta tudo, tudo e a satisfação do realizador ou melhor a recepção do público brasileiro é inversamente proporcional ao esforço empregado.
Dá-se murro em ponta de faca, mesmo. Existem filmes que devoram décadas até a sua finalização. Será que, depois de tanta luta, ao assistir a sua obra pronta o realizador ainda terá a mesma chama do começo das filmagens? Claro que sim, senão jamais o faria. Só não pode é chorar o leite derramado, depois de pronto, o filme não pode ser corrigido e mesmo durante as filmagens a possibilidade do erro tende a ser mínima, pois o material é muito caro, não pode vacilar, ô dá ou desce, a não ser que o mesmo tenha uma Rede de Televisão, amigos influentes, uma Estatal ou uma Rede Bancária lhe dando o suporte, não é o caso na maioria das vezes. Ao cineasta brasileiro não é permitido “A contribuição milionária de todos os erros” da qual falava tão bem Oswald de Andrade. Em outras formas de arte, teatro, literatura, dança, artes plásticas, isso não só é possível, como bem-vindo. No Cinema Americano, também, a possibilidade do erro, em todos os sentidos, favorece e muito o desenvolvimento da arte cinematográfica lá por aquelas bandas, haja visto que, de mil filmes feitos, claro que se salva uma meia dúzia, e é assim que ele cria fama e deita na cama.
No Brasil, a batalha começa com a criação ou procura de um roteiro interessante. Vencido os obstáculos iniciais, roteiro em mãos, é preciso montar uma equipe. Equipe formada, esta, tem entre outras funções a tarefa de conseguir, sabe lá Deus como, os equipamentos de filmagem. Enveredam pelos meandros da burocracia inoperante em busca de apoio ou um mísero patrocínio. Procura a iniciativa privada onde, estamos cansados de saber, esta, só investe em projetos com visibilidade e que tenham algum retorno financeiro, isso quando não querem meter o bedelho na criação alheia.
É preciso que o filme seja, de fato , algo inusitado quanto forma e conteúdo, tenha mesmo o que dizer e, se possível, fuja da mesmice e dos padrões estabelecidos pelo Cinema Americano. Aí é que a porca torce o rabo ! Ser ou não ser diferente da matriz? Ser original com rédeas? Antropofágico? Como ser antropofágico do lixo cultural imposto goela abaixo durante décadas? É de lenhar! Uma sinuca de bico! Muitas vezes saio do cinema, intrigado, depois de assistir a mais um filme americano, por que será que esse cidadão fez esse filme? Mostrar que sabe dirigir, bater e virar automóveis em alta velocidade? Matar com requintes de crueldade? Mostrar sempre os mesmos efeitos especiais? Contar uma única e sempre a mesma piada? Mostrar que sabe dar sopapos e pontapés? Repetir as mesmas histórias “ad náusea”? Vender pipocas e refrigerantes? Vender bugigangas e babilaques? Espalhar uma ideologia? Dizer ao mundo que ele é o porreta ? Quase sempre ao sair do cinema, me pergunto : “Por que aquele sujeito fez aquele filme?”. Enquanto isso o cineasta brasileiro tem que procurar a sua própria linguagem, a sua maneira de filmar, enfim, criar algo no qual o público brasileiro se espelhe, se reconheça, se aceite como tal (pobre, phudido e mal pago) e fuja, se possível, dos padrões e macaquices estabelecidas.
Alguns cineastas brasileiros pensam o contrário, acreditam que quanto mais se aproximarem da estética americana será mais fácil sobreviver. “Pão ou pães é questão de opiniães”, já dizia Rosa.
É a velha idéia colonialista, é comum se ouvir à saída do cinema quando da exibição de um bom filme brasileiro : “Bom, bom, gostei, nem parece filme brasileiro”.
Houve um tempo quando a queixa corrente do público brasileiro era de não ouvir direito os diálogos dos filmes nacionais, balela, na verdade ele já estava tão acostumado a ouvir os sons dos filmes na língua fanha (o inglês), o quê estranhava era a sua própria língua. O público nativo se reconhecia como tal pelo estranhamento e pela visão do outro, visão estrangeira.
Sintomático o que se convencionou chamar de “A retomada do Cinema Nacional” (olha o sisifismo, aí gente!): foi preciso que um filme brasileiro, contando uma parte da História do Brasil, fosse todo narrado em inglês para que tivesse acesso e grande aceitação do público nativo ; todos os outros filmes nacionais que vieram em seguida,e que conseguiram lograr algum sucesso, foram construídos em cima de uma estética e aparato técnico, totalmente, hollywoodianos. Será mesmo necessário que o Cinema e os Cineastas Brasileiros imitem o Cinema Americano para serem reconhecidos? Será esse o preço a pagar por tamanha ousadia do Cineasta Brasileiro? O Cinema Brasileiro precisa, de fato, ganhar um Oscar para existir? Penso que não, acho isso uma grande papagaiada e de um cabotinismo insuportável. O artista brasileiro é muito talentoso e o nosso Cinema sempre foi um dos melhores do mundo, resta apenas que o governo(ajudando na distribuição e exibição, porque não uma cota obrigatória de exibição do filme nacional? Na França e nos países civilizados têm, e aqui, por quê não?!) e o público brasileiro(tenha acesso aos filmes nacionais, abaixo a mais-valia da fé, os bingos e Viva os cinemas de bairros!) o percebam como tal, talvez nunca percebam em face de tamanha subserviência, dominação e monopólio. Quanta saudade de Glauber ! Quanta falta ele faz ! Uma câmera na mão, muitas idéias e sonhos revolucionários na cabeça ! Sonhar mais um sonho impossível ! Mais do que nunca é preciso sonhar, afinal de contas o sonho é a matéria prima do cinema, ainda que fazê-lo no Brasil, nos moldes que aí está, seja o Eterno Retorno do Sísifo, uma luta insana e desigual do Santo Guerreiro contra o Dragão da Maldade. Um Verdadeiro Trabalho de Sísifo.