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Padre Pinto e as tradições...

Adubo Divino !
Adubo Divino !

Padre Pinto e as Tradições da Bahia

Há muito não passara um buzu tão espaçoso, lugares de sobra, apenas um pequeno grupo de passageiros, todos sentados, viajando no mormaço das três da tarde de uma quarta-feira tediosa. Sonolentos, apreciavam aquele arremedo de cidade no qual havia se transformado a cidade da Bahia.

Preparava-me para solicitar a próxima parada, quando um senhor miúdo à frente falou em voz alta e impostada a uma senhora gorda ao lado:

- Não, Senhora, a senhora me desculpe, mas o povo baiano, não. O povo
baiano é um povo muito inteligente. Um povo maravilhoso, sabido, esperto...

- Ômi, quá! Eles são é preguiçoso, isso sim!

- Nada, nada, o povo não, o povo não, repetia sem deixar que a mulher pudesse esboçar reação. O povo é trabalhador! Preguiçoso? Qual o quê! Isso é preconceito. Se a madame me disser que os governantes são preguiçosos, eu até concordo com a senhora, falou alto estendendo a sua fala aos demais buzuzeiros.

- Oxente! Digo e repito: Um bando de preguiçoso, só querem saber de arrocha, pagode e mexer a bundinha, provocou a mulher roliça, com frouxos de riso, acordando a seleta platéia. E o Buzuzão serelepe na buraqueira, e tome-lhe repuxo...

- Não, não, nada disso, o mito da preguiça baiana denota um certo racismo,
velado, vem do tempo da escravidão, e os artistas ajudaram a reforçar isso, presepadas de artista, sacomé, né? Divertia-se com a jocosidade da gorda.

- Oxe... O povo daqui é tudo artistas, só querem se aparecer...

- Também não é assim, o povo baiano é um povo trabalhador, trabalhador e inteligente, puxaram tudo ao Ruy Barbosa...

Levantou-se do banco dos aposentados, fingindo um ar solene e circunspecto, parecia um advogado de defesa no tribunal durante uma pausa eloqüente da oratória.

- Hum, é ruim, hein? Aonde, aonde isso?

- Baiano retado, pequenininho, mirradinho, cabeçudo, bigodão, foi para a Inglaterra ensinar inglês. Aquele tinha sangue na guelra como diz a música. Animei-me com a prosa e com a massagem no Ego baiano, desisti de saltar, abanquei-me, resolvi apreciar a cena e prosseguir viagem.

- Aquele ali era retado, baiano retado. Miudinho, óia o cabeção! Foi lá em Haia e peitou àqueles alemão grandão, só tinham tamanho, e ele lá cofiando o bigodão e chamando os gringos na chincha. Empolgou-se o proseador, a essa altura, no corredor do Buzuzão, preparando-se para o embate que se anunciava. Águia de Haia! Águia de Haia! Arrematava cada frase com gestos cômicos e apoteóticos.

Foi quando a roliça também se levantou, botou as mãos nas cadeiras, e perguntou em tom de provocação:

- E Padre Pinto, Ruy Barbosa?

O pequeno rábula andou do motorista ao cobrador, cofiou o rosto imberbe e conjecturou, cinicamente, em voz alta :

- Uma maravilha! Uma inteligência rara! Sensibilidade à flor da pele!

Um homem ligado às suas raízes, às tradições...

- Oxente, Barbosete, ele soltou foi a franga! Disse a parruda com ares de promotora.

- Jogou as cajás! Jogou as cajás, em rede nacional...Disse um homem rude desmunhecando sem arte.

- Pirou, pirou, Olodum pirou de vez, disse um capoeirista que acabava de entrar tocando um berimbau, entre um din-din-dom e outro.

- É por essas e outras que se diz que o baiano do meio-dia pra tarde bota a braguilha pra trás, disse um velhinho safado se acabando de rir.

Alguém falou da borboleta :

- Ah, eu adorei àqueles blushs, àquelas sobrancelhas depiladas, àqueles cílios postiços, sombras, o torso de lamê dourado, a Oxum estava divina, maravilhosa... Era uma estudante peituda e rabuda caindo na gargalhada e se flertando com o cobrador, falava com a boca mole, parecia ter a língua maior do que a boca.

- Não é nada disso, não é nada disso, disse o pretenso magistrado com ares de cátedra, andando de um lado para o outro no corredor do buzu.

- Tradição!

- Tradição? Inquiria com falsa indignação a promotora muçiça.

- O padre Pinto estava apenas defendendo as tradições da nossa cidade...

- Aquele ali, aquele padre, nem o Papa dá jeito...

- Êta, Bahia que dá e deixa!...Gritou o velhinho safado...

- Uma força estranha tomou conta desta cidade, eles querem acabar com tudo...Arrematou o homenzinho com desolação forense.

- Tombém num é assim, contemporizou o velhinho sacana.

- O padre rodou foi a baiana, minha filha, aquilo foi enguiço musturado com feitiço...Confidenciou a robusta à peituda e rabuda.

- Olhem em volta da velha cidade da Bahia, abandonada, escalifada, jogada às traças, olhem em volta, e vocês constatarão o que digo... Enfatizava cada palavra o ilustre rabulão.

Naquele instante, Instaurou-se um pequeno tribunal no recinto, ainda que de brincadeirinha, enquanto o buzu ziguezagueava sacolejando a pequena corte.

O maior ouriço, o cobrador do alto da sua cadeira sugeria a dignidade silenciosa de um juiz. A peituda e rabuda tratou de sentar-se, ainda que com dificuldade devido às pernas escancaradas de um rapaz vestido de artista, arreganhadas, como era de hábito nos buzus da Bahia.

Os jurados, passageiros que - diga, despertos manifestavam-se no maior tititi:

- Ômi é mermo, todos os festejos baianos tão acabando, anté aqueles que a animação do povo era de lei, disse com saudade uma senhora negra, bem velhinha, de cabelos, sobrancelhas e cílios branquinhos, branquinhos, que entrara pela porta da frente chupando balas ice-kiss.

- As Festas de Largo, a prefeitura esculhambou todas...

- A procissão marítima do Nosso Senhor dos Navegantes hoje em dia da pena, ô tristeza! Ô tristeza! Lamentava a senhora de cílios branquinhos.

- Foi a prefeitura, resolveu botar o reveillon na Barra, no mesmo dia da procissão, são umas antas mesmo, disse o homem rude entrando na conversa.

- Tudo agora é na Barra. Engraçado é que a Barra não tem tradição nenhuma de festas populares, nada de nada, é de lenhar!...Divertiu-se a senhora de cílios branquinhos rindo e saboreando com gosto a sua balinha.

- Os modernosos estão jogando a tradição pela janela, constatava o digníssimo rabulador, e teatralmente arremessava alguma coisa pela janela do buzu. Parecia ter baixado o espírito de Ruy Barbosa no distinto, pinoteava e ajeitava as calças no meio do buzu com empáfia indignada.

- Tradição, tradição, não vai sobrar é nada, disse o rapaz vestido de artista à peituda e rabuda, esta, mais preocupada em não desmanchar o cabelo de escova definitiva. E o buxixo espalhou-se no buzu à boca miúda, cada qual tinha uma presepada, uma penada sobre a modernidade e a tradição.

- A capoeira, antes, regional e de angola misturou-se com o breique e o hip hop, virou balé, virou ginástica, tem mais branco do que preto jogando, só tem gringo, pode olhar, disse o capoeirista.

- O samba-de-roda autêntico virou pagode-de-bunda-loura...

- A puxada de rede sumiu, escafedeu-se...

- Os saveiros, tombém, tão sumino, se picaram - se...

- O abará, agora, é com fubá-de-milho, quem já viu?...

- O acarajé com farinha de mandioca e Ajinomoto pra ficar crocrante...

- O carnaval é padronizado, de camarotes...

- Estão acabando com os blocos afros...

- Vixe, Maria! É tanta patifaria que eles fizeram, o rol de roupa suja é tão grande que chega da canseira alembrar...

- Os Ternos de Reis, a Lapinha...

- Quando eu morrer/ Me enterre na Lapinha/ Calça culote/ Paletó almofadinha...Cantarolou o capoeirista.

- Por isso que o padre Pinto disse que queria morrer lá...

- Tem culpa ele?

- Dinheiro, dinheiro, o mal do mundo é a usura, é a ganância, meus amigos. Sim, sim, muito bem colocado : Tem culpa ele? Arrematou o rabulista chamando a atenção de todos para o júri em questão.

- Que a dança afro do padre tava uma maravilha, Ah, isso tava! Disse o rapaz vestido de artista .

- Ah! Eu adorei a índia e a Oxum, disse com gaiatice e a língua mais frouxa ainda a estudante rabuda e peituda.

- Conheço o Padre Pinto de há muito, do tempo que se amarrava cachorro com lingüiça, disse o nobre orador.

- Hum, meu tio entende do babado, disse com bazófia o senhor rude que desmunhecava sem arte, muito embora mostrasse interesse no relato.

- Adorava armar o presépio de Natal incentivado por sua avó materna. Ansiava pela chegada do mês Dezembro quando então começava a astuciar os motivos e confeccionar os adereços para tão fascinante data : o Nascimento do Menino Jesus, o dia quando os homens receberam a Luz Divina que iria guiar a humanidade, como sabiamente diziam os mais velhos.

- O Arcebispo disse que vai internar ele no Juliano, falou a senhora de cílios branquinhos se benzendo.

- Achava tudo lindo e maravilhoso: a Manjedoura, Nossa Senhora e São José, os três reis magos, os carneirinhos, os boizinhos, o Menino Deus, disse a peituda e rabuda deslumbrada.

- É nem uma! Ele fumou foi um morrão, não foi não “Cobra”? Disse o capoeirista com ingrizilha inquirindo o cobrador, este, qual um juiz, balançou a cabeça entre o sim e o não.

- Deslumbrava-se com o colorido das luminárias dos Ternos de Reis, o figurino, as fitas, os adereços de papéis laminados, crepons, celofanes, a plasticidade da gruta em papel machê, o curralzinho, o nincho...

- Foi assim que pegou gosto e todos os anos passou a religiosamente seguir a tradição da família, completou a peituda e rabuda como se fosse uma testemunha de defesa.

- Isso mesmo! Desenvolveu um gosto apurado pelas artes plásticas e também um grande apreço pelas religiões, fora amigo de infância do famoso pai-de-santo Joãozinho da Goméia lá na Capelinha de São Caetano, disse, peremptoriamente, o improvisado magistrado.

- Hum, ele era chegado a um bembé? Então é gente nossa, é boca-de-zero-nove! Falou o velhinho safado, atiçando o burburinho.

- Oxe... Não é o quê? Ele vai virá Ogã...

- Já começou a iniciação...

- Raspou a cabeça, as sobrancelhas, raspou tudo...

- Coitado!

- Coitado nada, ele tá é feliz, dia desses estava no Pelô tomando otim-fum-fum e dançando ijexá...

- As obras sociais dele na Lapinha são um colosso, igual ou melhor que as de Irmã Dulce, confidenciou o senhor rude, sem desmunhecar, à senhora dos cílios branquinhos.

- Agora foi tudo por água abaixo, nem o mel nem a cabaça, retrucou a senhora dos cílios branquinhos, com muxoxo, mais interessada na narrativa e mise-en-scène do pequeno rábula, que então encontrara um tom coloquial e misterioso.

- Sendo ele como a maioria da população baiana, oriundo da raça negra, miscigenado, fouveiro, desde pequeno aprendeu a adorar tudo que dizia respeito às tradições da Bahia. O tempo passou e ao chegar na adolescência, na hora de decidir o que fazer na vida, já com um pé na jaca, quer dizer, nas artes, gostava das artes plásticas, da dança, do teatro e de tudo que envolvesse criatividade, sensibilidade...

- ...e uma boa dose de exibição como todo bom baiano que se preza, disse a peituda e rabuda com tamanho entusiasmo que acordou o vestido de artista cochilando no seu ombro.

- Prestes a quedar-se ao brilho artístico, disse o homem rude com frescura patética.

- Qual não foi a sorte do menino, coisa do destino mesmo, quando já estava decidido a seguir carreira tão encantadora, eis - que surge um tio argumentando que uma vez que o mesmo tinha todas as tendências artísticas e ao mesmo tempo adorava os temas religiosos, por que não tentar o Seminário, ser um seminarista, quem sabe um padre. Lá, estudaria todas as formas de arte, assim como usufruiria de enorme cultura e enlevo, foram essas as palavras finais do tio e com as quais o convenceu a abraçar o sacerdócio...

- Tem sempre uma tia velha no meio da história, tá boa santa? Debochou, a roliça promotora com as mãos nas cadeiras, no meio do buzu .

- Assim foi, assim está, assim seja, assim estava escrito, disse o rabulador tentando impressionar os jurados, enquanto o buzu ziguezagueava sacolejando a pequena corte que silenciosa ouvia tão eminente orador.

- Toda uma vida dedicada a Cristo, Muito tempo de lutas e sacrifícios. Trinta e três anos de sacerdócio, grande parte deles dedicados à Igreja e à Festa da Lapinha, lamentava a velhinha de cílios branquinhos benzendo-se com sofreguidão.

- Presenciou ascensão, glória e decadência das Festas de Largo da cidade da Bahia, prosseguia o relato, com gestos apoteóticos, o nobre porta-voz do povo.

No apogeu, a cidade da Bahia toda corria para os festejos religiosos e profanos. As missas eram celebradas de hora em hora, com todas as pompas e circunstancias, as portas das igrejas abertas, misturando-se fiéis e festeiros, não dava para saber onde começava a romaria de fiéis e os desfiles dos Ternos de Reis, as rodas de samba, a capoeira, o axé do povo-de-santo, enfim, todos os folguedos, culturas e levadas. Misturava-se tudo, tudo, tudo junto como uma coisa só: Música sacra com os tambores aos orixás; os cânticos em louvor aos santos com as cirandas e reisados; o sermão do padre com o serviço de alto-falante do Parque de Diversões; as ladainhas e novenas das beatas com os pontos e cânticos do bembé; artistas famosos com autoridades e emergentes, ricos e pobres, brancos, pretos e fouveiros, analfabetos e doutores. Na alvorada, à primeira missa da manhã, seguida de uma salva de fogos e o bimbalhar dos sinos anunciando as comemorações. O padre Pinto sempre à frente do cortejo, Ternos de Reis, Bandas, Filarmônicas, uma cacetada de músicos, uma porrada de sons e cheiros, o andor com Nossa Senhora, gente que não acabava mais, seguiam cantando e dançando por todas as ruas, vielas e becos. Perto do meio-dia já não era possível transitar pelas ruelas do bairro, apinhadas de gente. As barraquinhas de madeiras, bancos e mesas de madeiras pintadas, bem coloridas com frases e dizeres populares, cada uma mais enfeitada do que a outra, muita criatividade popular , muitas cores, muitos brilhos, muitos cheiros e muito axé, não eram esses Toldos horrorosos de agora, não, quem já viu? As ruas, todas, entupidas de gente, bebendo, comendo e dançando samba duro do Recôncavo, remexendo as cadeiras sem tirar o pé do chão, a chula, ou qualquer outro ritmo que aparecesse, e aparecia, tinha de tudo. O povo comparecia com suas roupas novas e a alegria sempre renovada. Portanto, meus amigos, atirem a primeira latinha de cerveja quem nunca cometeu uma baianada... Respirou fundo e triunfante qual o padre Antônio Vieira ao findar os seus sermões.
O pequeno rábula foi ovacionado dentro do buzu com uma salva de palmas e vivas ao padre Pinto. O capoeirista puxou uma autêntico samba de roda : Sai, sai, sai ô piaba/ Saia da lagoa/ Dá um remelexo no corpo/ Dá uma umbigada na outra... E o couro comeu no centro, o Buzuzão todo em festa, porreta mesmo... Pé dentro/Pé fora/ Quem tiver pé pequeno/ Que vá embora/... A parruda indignou-se de verdade e saltou do ônibus em movimento, debaixo de vaias, estabacando-se na pirambeira.
Quando dei por mim havia chegado ao fim de linha, na Mata Escura, já que estava ali não custava nada dá um pulinho no Bate - Folha e prestigiar o Bembé porreta, Fui... Axé, babá!...