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Maicon Jequison in Pelô

esperando ele, o levípede espasmódico!
esperando ele, o levípede espasmódico!

Maicon Jequison in Pelô

Quando os meios de comunicação anunciaram a vinda do cantor e dançarino americano Michael Jackson à Bahia, para a gravação de um videoclipe no Pelô, a Vila Rosenval(aquela mesmo de que quando Bob Marley morreu foi o maior chororô) entrou em festa.
Ninguém queria perder a oportunidade única de ver o astro rebolativo em carne e osso - mais osso do que carne, verdade seja dita -, mas que diferença faria? É nem uma!
Todos não queriam deixar de ver os rodopios do efebo rebolante em cima das pedras cabeças-de-negro do Pelô.
Muito menos Dona Creusa, uma senhora roliça, sacoleira nas horas vagas, mãe de cinco filhos e vendedora de acarajé por ofício e obrigação religiosa.
Fã de carteirinha do astro pop e de todos os artistas da televisão.
Adorava as novelas, os programas de auditório, a “Tela quente”, a “Sessão da tarde”, o “Vale a pena ver de novo”, enfim, toda e qualquer diversão televisiva. Tinha verdadeira adoração pelos artistas, internacionais então nem se fala.
Sua adoração pelas maravilhas televisivas era tamanha que todos os seus filhos foram batizados com nomes de artistas, lembrava Dona Creusa com orgulho: Magaive, o mais velho, Magal, Bruçuiles, Silvo Santo e Maicon Jequison, o caçula. (Quanto à grafia é de bom alvitre ressaltar: culpa do marido e do escrivão do cartório).
Assim estava, assim ficou.
E apois tá certo... Entonces, a oportunidade de ver o astro rebolante ao vivo e a cores? Não perderia esse “Show” por nada nesse mundo. Aonde? É ruim,heiin! Chovesse canivetes! Ela iria.
O estado de êxtase dela era tão grande que, mesmo sem ouvir direito o noticiário, à noite não conseguiu dormir pensando em como a sua vida poderia mudar se conseguisse chegar perto do ícone rebolativo. Apresentaria o caçula ao astro tremelicoso. Sabia da adoração que devotava às crianças. Sabia o quanto amava as crianças. Quem sabe, ele não daria uma ajudazinha para terminar o “puxadinho”? Hein? Que maravilha! Convidariam o artista para a inauguração do “puxadinho”. Ele viria. Um sujeito simples e humilde, qual o dito cujo, não se faria de rogado. Viria. Claro! Que viria. Quem sabe, ele não poderia até arranjar um “seuviço” para o marido dela? Se arranjasse, ele não precisaria mais catar latinhas para ganhar uns trocados. Não conseguiu dormir, nem naquela noite, nem nas noites seguintes, de tanta felicidade. Não cabia em si de tanto contentamento. Ansiava por chegar o grande dia. Quando, finalmente, iria conhecer aquele que de alguma forma poderia mudar a vida de toda a sua família. Dois dias antes do grande dia, foi ao terreiro da mãe-de-santo preparar um ebó, seguindo todos os preceitos para que o abará e o acarajé ficassem no ponto (tá pensando o quê? O acarajé dela, era de preceito, não era desses acarajézinhos de “Xopin” ou de fubá-de-milho que vendem em caixinhas no supermercado, não. Muito menos desses acarajés de Jesus, quem já viu?), e também para que vendessem mais do que chuchu na feira do Japão, na Liberdade.
Obrigações cumpridas, trabalhos feitos, caminhos abertos, as vésperas do grande dia, botou o abará para cozinhar e o feijão fradinho quebrado de molho para fazer a massa do acarajé. Reuniu a família e delegou: os meninos mercariam as suas habituais “guias”, somente Magal venderia picolé Capelinha, e faria as vezes de cicerone às gringas. Roquenilson, o marido dela, iria tomar conta do tabuleiro e de toda a “guia” da família. Houve protestos: “mas, logo ele?” O marido esperneou, isquin-dim-dim! Gingou pra cá, gingou pra lá, isquin-dim-dim! Preparou uma benção, dim-dim! Fez que foi, não foi, fez menção de um rabo-de-arraia, não fez, dim-dom! Desferiu um contragolpe, e quem iria catar as latinhas da festa? Maicon Jequison sozinho não dava conta, podia se perder na multidão. Gingou pra lá, gingou pra cá, isquin-dim-dim! Rodopiou, ia dar um martelo. Não, não, não ia dar certo. Ele tinha que catar como sempre catou, “não se muda time que está ganhando”, ele e o Maicon Jequison, isquin-dim-dim! Preferiu o rabo-de-arraia. Não, de jeito e maneira, estava resolvido, dim-dim-dom! Argumentou Dona Creusa, caindo na negativa e dando uma meia-lua inteira, dim-dom. Ela havia até comprado um “Akêtê” e uma bata afro para ele usar como o Baiano do Acarajé, ia ficar lindo!
E depois era um senhor “marquetingue”, um homem vendendo os acepipes. Ele não se preocupasse, ia dar tudo certo, vez por outra, o ajudaria. Ela e Maicon Jequison iriam ver o acrobata tremeliquento. Depois de alguns protestos, ficou assim combinado, “Camará!”. Quando imaginou ter chegado o grande dia, Dona Creusa acordou às quatro horas da manhã e foi logo enfiando nos dedos as sandálias de salto plataforma, acochou um vestido tubinho rosa-choque que comprara na “Marisa”, arrematou com colares-de-conta, patuás e um turbante nas cores de Oxumaré, com cuidado para não desmanchar a “escova” que fizera no dia anterior. Em seguida, ajudou Maicon Jequison a amarrar o cadarço do “rébok” e, “zarparam” em direção ao Pelourinho. Ao chegarem ao Centro Histórico, para ser mais preciso, ao largo do Terreiro de Jesus, o dia já estava amanhecendo. Levaram um susto. Não havia ninguém, a praça vazia, sem um pé de pessoa. Somente o bimbalhar renitente dos sinos, ecoando ao redor, incomodando alguns mendigos a dormir sob as marquises. E lá no finalzinho da rua, em frente ao Cruzeiro da Igreja do São Francisco, crianças e mulheres famintas revezavam-se arrebatando pequenos pães de uma senhora caridosa, elegante e risonha. Adiante, um bêbado chutando lata e só, ninguém mais, somente ela e o pequeno Maicon.
“Mas, será o impussíve? Será o Benedito? Nem um pé de pessoa? Valei-me minha Santa Bárbara! Eparrei! Iansã. Oxalá! Meu pai. Odoyá! Minha mãe.”, pensou, reverenciando os orixás - o de cabeça, o de frente e o de costas como ainda diziam na Bahia -, axé babá!
Caminharam até o adro da Catedral Basílica e sentaram-se nos degraus. “Que decepção!”, imaginara encontrar mais polícia do que na chegada do Papa à Bahia. Teria polícia para a polícia e polícia para os seguranças do menestrel do faniquito. Só se veria tanto policial assim em datas muito importantes como no desfile da Seleção Brasileira Tetracampeã ou se a casa de alguma autoridade fosse assaltada. Gente, mas tanta gente, que pareceria “teuça-feira” de Carnaval ou enterro de algum baiano famoso, filosofou com sociologismo Dona Creusa.
Haveria vendedores, repórteres, cinegrafistas, turistas brasileiros e estrangeiros, religiosos de todos os credos, baianas do acarajé, falsas baianas, artistas famosos, outros nem tanto, o Olodum (tocariam com o quadriloqüente), os blocos afros, as “protistutas”, os entendidos, os malhados enrustidos, os estudantes, os intelectuais e “vagabas” afins.
O Centro Histórico estaria cheinho, entupido de gente, o Trio elétrico e as autoridades (com autoridade e outras sem autoridade nenhuma, somente puxando o saco.), toda a patuscada, meia-Bahia.
Toda essa gente esperando ele, o levípede espasmódico, desde cedo, que nem ela. E o “mega-star” do remelexo só chegaria ao “Pelô” ao entardecer da segunda-feira, ou da “teuça”, “teuça não, teuça, era a teuça da benção”. Mas, não veio ninguém!...
Os sinos, agora, de longe em longe, remoravam arrastados, melancólicos, quase estanques.
- Tombém ainda é cedo. Vamos aguardar. Segunda-feira é “dia de branco”, o povo trabalha, mas o povo da Bahia não tem trabalho não é só em festa? Êta! Povo que trabalha! Trabalha no trabalho e trabalha nas festas. Quanto trabalho! Contemporizou exausta, numa análise antro-sócio-psico-econômica da Soterópolis, Dona Creusa.
- Mas não veio ninguém? E Roquenilson e
os meninos que não chegam? Pensou em voz alta e sorriu quando viu Maicon Jequison desajeitado fazendo umas cabriolas, dando uns rabos-de-arraia, benção, meia-lua, martelos e aús. Dança o “Breique”, meu filho, dança o “Breique” que é melhor, pensou dizer isso ao Maicon, mas desassossegou-se lembrando dos outros filhos. Magaive, o mais velho, em homenagem ao detetive da TV, policial “retado” - se a Bahia tivesse uma meia-dúzia assim o “pobrema” da criminalidade tava resolvido - , Magal, o segundo, era por causa do cigano que fazia seu sangue “feuvê”, tava meio gordinho o cantante latino, mas rebolava que nem o magricela americano. Bruçuiles, o “teuceiro”, “teuceiro” ou quarto? Ela sempre se atrapalhava, o duro de matar da sessão da tarde, era magricela, mas todo dia tomava caldo de mocotó, um dia ia ficar “bombado”. “Alembrou-se”. O quarto era o Silvo Santo. “Êta! Homi porreta”. “Êta! Homi bunito”, o Silvo Santo da TV, e o dela “tombém”. Ela gostava muito do Silvo Santo da TV, por que ele era o único pobre que ela conhecia que ficou rico trabalhando, era pobre e ficou rico, era rico e sorridente. Ela adorava o “Carnê do Baú”, era outro que ela ainda ia conhecer, quem sabe? “No topa tudo por dinheiro”, na “Roda da Fortuna” ou no “Show do milhão”, quem sabe? E tinha o caçula que ela escolheu Maicon Jequison, em homenagem ao mancebo requebrante.
O marido ainda tentou botar outros nomes, mas, Dona Creusa não deixou, ele, o Roquenilson com a mania de futebol e candomblé queria botar nos dois “premeros” os nomes simplórios de Jorge e Antônio em homenagem a Oxóssi e Ogum, e nos outros três, Romaro, Bebeto e Dunga, vê se pode? Nomes simples demais para o gosto sofisticado e televisivo da Dona Creusa. Mas o que se há de fazer? Gosto não se discute. Depois como diz a revista “Caras”: “Crasse não é para quarquer um”. “Tem que ter beuço”.
Ela também gostava de um batuquezinho e de umas oferendas, mas não era fanática.
O que ela mais gostava no candomblé era que nada era pecado. Não tinha essa idéia boba de pecado das outras religiões. Nada era pecado. Ninguém queria ser santo, e sim, através dos rituais e oferendas aos Orixás, encontrar um bálsamo para as mazelas terrenas. Só isso, e ela, Dona Creusa, era eclética. Gostava de ser assim.
Gostava de tudo um pouco, mas o que ela gostava mesmo era de trabalhar e ver televisão. A televisão era um sonho, mostrava outros mundos, outras gentes, outras mentalidades, quanta cultura! Divagava Dona Creusa sorrindo, enquanto Maicon Jequison debaixo de um sol escaldante se empanturrava de “Doritos”, admirando um imenso quadro da Santa Ceia sendo pintado num papelão por um solitário artista de rua.
E o Roquenilson, o marido, que não chega... Se ela deixasse, ele ficava tomando “Otin-fum-fum” e jogando dominó, ou então correndo atrás de algum vereador na esperança de arranjar um
emprego de gari. Isto é, se não estivesse jogando os últimos
trocados na Mega Sena.
Estava doida para ver o Roquenilson vestido de baiana, de baiano quer dizer. Vai ficar lindo com aquela bata afro e aquele “Akêtê”.
Daqui a pouco chegaria a mocinha da TV Bahia, ajeitando os cabelos e com aquele sotaque carioca, para entrevistar o Maicon, o dos rodopios. Não, não, primeiro, ela entrevistaria o Governador que iria falar da alegria do povo baiano e da importância da vinda do pé-de-valsa à Bahia.
E se a repórter lhe perguntasse alguma coisa... Seria melhor ela se ajeitar, pensou desacochando o tubinho. Ao seu lado Maicon Jequison, o dela, pularia para aparecer no vídeo dando “tchau” para todo mundo da Vila.
- Como o povo da Bahia é hospitaleiro, pensou em voz alta e com orgulho de ser baiana. Precisava armar uma estratégia para na hora da confusão poder furar o bloqueio, mas... Primeiro, teria que mergulhar naquele mar de gente, naquela multidão. E depois chegar até o cordão de isolamento.
As oportunidades não são para todos, como prometem os políticos? Promessas, promessas... Ah! Mas, isso não enchia barriga. “Saco vazio não fica em pé”. Seu erê daqui pa’pouco estaria querendo jé: acará-jé mãe, abará-jé mãe, comer, mãinha. Já o requebrador diria: “Mama, eat, ai eme rangrede, mame”. Não lembrara de trazer nada para comer, a não ser os “Doritos” da propaganda que Maicon vivia fascinado e “enchia o saco” querendo que ela os comprasse.
Ainda bem que daqui “pa’pouco” o Silvo Santo, o Bruçuiles, o Magaive e o Magal chegariam: um vendendo cafezinho e água encanada no saquinho, naturalmente; o outro com os churrasquinhos de gato fazendo uma fumaceira que era uma beleza, comida típica baiana; o “ou’troto” só nas geladinhas e nos “refs” e o “tresou’troto” no picolé Capelinha, claro, e desfilando com as gringas e os gringos; ladeira acima, ladeira abaixo... Gargalhou agudo e debochado com essas lembranças.
Que maravilha a sua família, tudo com saúde, tudo trabalhando.
E esse povo que não chega! Já vai dar meio-dia e nada! Murmurou bem -humorada, ao ouvir o bimbalhar alegre dos sinos da matriz, anunciando as horas canônicas.
Resolveu dar uma volta pelas ruas estreitas do Pelô, puxou Maicon Jequison, o qual com preguiça, parecia amuado.
Quanto casarão bonito! Quanta loja chique! Parecia um “Xopin”, dizem que é tudo caro, tudo “pela hora da morte!”. Seguiu arrastando Maicon e admirando a rua João de Deus, o Hotel Pelourinho, a Casa de Jorge Amado, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, mas como estava bonito o “Pelô”, colorido, vazio e quebrantado. Apenas, dois caminhões de bebidas afundando ainda mais o calçamento secular, do outro lado alguns turistas e “ociólogos de plantão” admirando os casarios e “jogando conversa fora”.
Que maravilha era a Bahia, mágica. A Bahia é a Bahia, falou com profundidade aos seus botões.
Ah! Se ela conseguisse furar o bloqueio, a vida deles ia mudar...
Quando ela chegasse lá no cordão de segurança... Mas, e falar “ingrês”? Ela não sabia falar americano. Sabia, quer dizer, o “the book on the table” que todo mundo aprendia na escola. Não tinha “pobrema”, o vizinho de porta, Crispiniano saberia. Ele vendia fitinha do Bonfim para turista, deveria saber. O vizinho dublaria. Ele sabia sim, não foi ele que deu a idéia do nome Magaive? Ela chegaria no cordão de isolamento e diria: “Rêlô! Rauduidu, Mister Jequison? Prizze, Ai eme Tóquio abaute der...”, tal qual o vizinho Crispiniano. Baiano “retado” o Crispiniano, Falava umas quatro ou cinco línguas, ainda falava “baianês de quebra”.
Ô! Povo “retado” pra aprender as coisas, rápido, é baiano: a criatura um dia assiste um culto, no outro, já é pastor; num dia, a criatura aprende a tocar qualquer batuquezinho no “buzu”, no outro, já está tocando nas rádios; e assim é em tudo, tudo. Ô! Povo artista é o povo baiano. Aprende fácil. O povo daqui aprende tudo rápido e fácil. Não precisam nem de estudo. Pra quê? Pensava na vida, na sua gente, na cultura e na “levada” da Bahia, enquanto desciam a ladeira do “Pelô”.
Pra quê estudo? O povo daqui aprende tudo é na “marra” e inventa que é uma beleza. Inventa novas danças, músicas, modas, histórias, palavreados...
Ô Povo inteligente! Puxaram tudo ao Rui Barbosa.
Ô Povo exibido! Adoram se mostrar pra turista, pra gente de fora. Ficam tudo com os dente arreganhado pros de fora. Ô Povo alegre! É tudo doido. Tudo doido por uma festa, por um gringo ou uma gringa. Vão gostar de gringo assim lá na Engomadeira! E gostam mesmo. Ô Povo dado! Ô Povinho bom! “Nós sofre, mas nós goza”, rumorejava, cansada e contente.
E se ela furasse o bloqueio? Convidaria o bailarino cantante para conhecer a vila. Já estava vendo a Vila Rosenval toda enfeitada com bandeirolas, um grupo de pagode “porreta” mostrando a ele o mais autêntico samba da Bahia, ensinaria ele a dançar “Na boquinha da garrafa” e “Segura o tchan”. Faria um sarapatel e uma dobradinha, ia ter “muntcha ceuveja”. Será que ele bebia “ceuveja”? Devia beber. E pimenta? Seria engraçado o siricotico rebolativo comendo pimenta, aí é que ele ia rebolar na laje.
Dona Creusa teve o “estalo de Vieira”, um não, vários!
Furaria o bloqueio usando a inteligência baiana, pois como diz a música: “o pau que nasce torto/ não tem jeito morre torto/ baiano burro/ garanto que nasce morto”.
Então, primeiro diria que era amiga de Caetano Veloso. Todo mundo nessa terra é amigo de Cae, ou primo, ou conhecido, ou tinha um amigo conhecido dele. Havia sempre uma comitiva com ele, aquela corda de caranguejos. Aonde ele vai, vão atrás, igual ao Trio Elétrico. Era engraçado ver Caetano andando nas ruas e aquela “entourage” atrás dele, querendo aparecer mais do que ele, aquela cauda de cometas... Não, não. Não daria certo. Cae rebolava, mas eram uns remelexos tímidos, diferente do rebolado viril e másculo do estróina.
Poderia dizer que era amiga de Jorge Amado, talvez, dissesse que ele tinha se inspirado nela para fazer Gabriela – aquela, da novela da Globo -, não, não, o remelexento só gostava de “Peter Pan na terra do nunca”, e depois Jorge Amado seria um “Diretor de novela” muito erudito para ele, um astro pop americano.
Talvez, Paulo Coelho, aquele amigo de Raul Seixas, outro baiano “retado”, gênio, será que Paulo Coelho era baiano “tombém”? Tem tudo pra ser. Ele “tombém” era gênio. Como tem gênio nessa terra. Se não era baiano estava perdendo tempo. Se não era, ficava sendo. É isso! Iria falar que era amiga de Paulo Coelho, ele fazia até chover! O “trança-as-pernas” deveria conhecê-lo, ou não? Vão fazer uma novela com um “gibi” dele, ela viu na revista “Contíguo”. Será que daria certo esse seu pensamento tiético iconoclástico, como diria Gilberto Gil...
“Oxe...! Né não!... Né nada disso. Já sei, avia Maicon Jequison, anda, tira essa mão da boca, vum’bora!”, pegaria o filho arrastando-o pelo braço e aproveitaria o vácuo da tropa de choque rasgando a multidão, seguiria adiante, ela e o filho, furando o bloqueio até chegar ao cordão de isolamento. “Anda, Maicon Jequison, deixa de ser lerdo!”.
Chegariam ao cordão de isolamento que isolava o cordão dos seguranças do sapateador diáfano:
- Quem é que essa gente de fora pensa que é? A rainha da Inglaterra? Nem ela teve esse aparato todo, chega assim fechando a rua dos outros. A rua é pública ou não é? Protestaria um famoso “ociólogo” baiano.
- Fechar a rua assim, só a Rede Globo, mas ela pode, é diferente, é maior que esse mané - gostoso, bradaria um cidadão deveras politizado.
- E depois, a Rede Globo ainda convida “as gentes” da Bahia para fazer figuração. Tem consideração, não é assim, com essa arrogância, tartamudearia um “rastafari” de butique, “chapadão” dançando o “Break”.
- Chega pra lá seu safado! Vá “fazer terra” na senhora sua mãe, seu desassuntado, explodiria a genuína representante da sensualidade baiana, uma loiríssima e “muciça” dançarina de pagode empinando com raiva o seu carismático “balaio”.
Maicon Jequison, coitado, preferiria mil vezes está catando latinhas atrás do Trio Elétrico do que tá naquele “empurra-empurra”, naquele “o debaixo é meu”, naquele “entrega pra Deus”. Deus é mais! Quem é que ficaria naquele “espreme-gato?” Creusa? “Aonde?” “É ruim, hein?” Ela sairia daquele “esfrega-esfrega” e procuraria um jeito de ludibriar aqueles detetives da língua fanha.
- Olha o caranguejo enlameado, gritaria um baiano “esperto” para que a multidão lhe desse passagem.
- Ó! O gelo, ó! O gelo, tá gelado! Cuidado com o gelo! Diria um outro completando a esperteza, inteligências raras!
Ninguém se abalaria, somente um ou outro turista desavisado para cair num chiste tão velho e manjado daquele, “me batam um abacate, prizze!”.
Ora, estavam numa encruzilhada, entre as ladeiras do Passo, Carmo, Taboão, e as ruas das Flores e Pe. Agostinho Gomes.
Maicon Jequison, amuado, choramingava cansado, queixando-se do “rebok” a apertar-lhe os calos, assim como do sol inclemente castigando-os sem dó nem piedade entre jóias e relíquias do “Pelô”.
Pararam em frente à porta de uma das últimas funerárias do lugar. Funerária Moderna (uma vitrine “prêt-à-porter”! Talvez, Salvador seja um dos poucos lugares do mundo onde essas coisas lúgubres, ainda, fiquem expostas ao público), assustadora, mas, bonita e exótica. Antigamente havia muito mais, em todo o lugar da cidade que se chegava havia umas duas ou três. No Terreiro de Jesus, mesmo, existiam muitas, depois da reforma sobraram poucas, somente esta e outra ali adiante.
Uma certa melancolia aflorou em Dona Creusa naquele instante, talvez, devido ao local funesto ou, quiçá, à fadiga natural da tarde, um sentimento experimentado apenas ao assistir às novelas de época ou aos melodramas da saudosa Janete Clair.
Se ainda houvesse uma funerária no Terreiro de Jesus, ao lado do cordão de isolamento, seria “mangaba”, mas com a reforma do Pelourinho agora só existiam lojas de “Barão!” Joalherias, “xopins” e restaurantes chiques, não havia nem um biombozinho. Se ainda houvesse, ela diria: “Vamo! Maicon Jequison, vamo embiocar por aqui!”. Desceria em disparada com o filho. Embiocar-se-riam num daqueles caixões, ela e Maicon Jequison. O Tremeliquento num já tinha feito um “clipe” de mortos-vivos, então? Sorriu amarelo das suas maluquices. Ou então, enfiar-se-iam num daqueles cortiços e “sebo nas canelas... Queria ver qual era o 007 que tinha pique pra pegar nós? Aonde? É ruim, hein?”.
A Bahia estava mudada, o seu povo estava diferente...
Bahia, minha preta...
Aonde andará aquela gente cordial, hospitaleira, gentil e solidária? Os negros “bambas” da capoeira? As morenas sestrosas das Festas de Largo?
Não havia mais Festas de Largo!
Agora, eram uns toldos horrorosos no lugar das barracas coloridas e criativas de um passado remoto. Ainda iria descobrir quem foi o asno, o jegue, que inventou de trazer para as festas de largo aqueles toldos infelizes.
“O povo é que não foi!” Tinha certeza disso.
Som mecânico, quem já viu? Bonfim “light”? Conceição “light”, quem já viu? Por essas e outras é que agora preferia a televisão. Já que é para “avacalhar” tudo, melhor na televisão, pelo menos, ela não precisava sair de casa.
Oxe...! Quem já viu, Festas Populares sem espontaneidade... sem mistura... sem história?
Bahia, minha preta...
Aonde andará as negras e os negros, quase azuis, do candomblé? Aonde andará os mercadores com suas cantigas afinadas de manhãzinha de porta em porta? Cadê o acarajé de preceito, o vatapá autêntico? Que ventos levaram os saveiros para bem longe de ti? O que foi feito dos peixes pescados na hora e vendidos na rampa do Mercado Modelo? Os cheiros de mar, de mato, de frutas, de flores?
Ali mesmo, onde se encontrava naquele instante, até bem pouco tempo havia um casarão histórico, no qual à sua frente dançavam o samba-de-roda, passavam os capoeiristas, as morenas, os políticos desocupados da época. Hoje um ermo estacionamento de automóveis de luxo. Hamburgueria gaúcha “Baitacão” em pleno Elevador Lacerda, quem já viu? É ruim, hein?
A natureza sempre foi dadivosa com essa terra, mas os “homis”...
Tudo, agora, era moderno, novo...
A Bahia, agora, era uma terra de novos ricos. Bastava olhar nas colunas sociais dos jornais: corretores imobiliários, donos de agências de automóveis, pagodeiros, pagodeiras rebolativas, gente sem “Beuço”... Eram os novos endinheirados. São metidos por gosto, somente por vaidade, só querem aparecer...
E ela também queria, tão pensando o quê? Ela também sairia nas colunas sociais, ela Maicon Jequison e o sacode-a-bundinha. Não era qualquer timbaleiro, não minha filha. Era o tremelicado, tá pensando o quê? Dólar, money, depois iriam direto para “Niverland”, “sorry” periferia!... Era só deixar passar esse surto nostálgico-poético, esse arroubo politiqueiro que a assaltara de repente, não se preocupasse, isso tinha cura, era apenas memória emotiva obsessivo-compulsiva, como diriam os psicos-antros-neuros-artísticos-históricos-poéticos-lingüísticos-imagéticos-novelísticos de plantão, os fregueses dela. Isso passa. Tudo na vida passa. “Tudo na vida é passageiro, menos o cobrador e o motorista”, conjeturou num demorado suspiro Dona Creusa.
Depois, refeita, sorriu carregando Maicon Jequison ladeira acima na “carcunda”, cantando: “balançando/ a bunda pra cá...”, “balançando/ a bunda pra lá...”, enfim; espargindo a força, a simpatia e o poder da “baianidade nagô”.
Precisava encontrar os meninos, já estava caindo a tarde, agora sim, o sol esparramava preguiçoso, pachorrento, abençoado pelo Senhor do Bonfim. Precisavam comer alguma coisa, beber alguma coisa, pensou em passar no “Cravinho” e tomar uma “Otin-fum-fum”, não, não, “goró” tem hora!
Tinham que voltar para o Terreiro de Jesus. Falar com Roquenilson e com os meninos. E ver o sacode-a-bundinha, ora essa!...
Os sinos a repicar chamando os fiéis à missa da véspera, ao ângelus, às ave-marias.
Anoiteceu e não apareceu ninguém. Pegou Maicon Jequison no colo, pois, a essa altura já estava em sono solto e seguiu macambúzia de volta à realidade da Vila Rosenval.
Chegando lá, somente encontrou Bruçuiles, em prantos, uma vez que o “rapa” havia apreendido toda a “guia” - a dele, dos irmãos e a de Roquenilson, o pai -, e eles estavam presos na delegacia. Roquenilson reagira à prisão. Dera uns “catiripapos”, umas pernadas nos fiscais da Prefeitura. “Eles bem que mereceram, tudo gordo e lerdo, umas sanguessugas!”. Dona Creusa arriou Maicon Jequison no sofá-cama, respirou fundo, “sacudiu a poeira” e lembrando uma frase do futuro imortal Paulo Coelho, disse: “Se lhe derem um limão, faça uma caipirinha”. “Se ele não disse isso, deveria dizer, pois, é digno da sua gaiva”. E saiu em direção à cadeia maldizendo a sorte, a sorte e a perda do capítulo da novela das oito. Quanto ao tremelicoso, ela fora precipitada, ouvira mal, coisas de fã, não é mesmo? A gravação ainda seria, provavelmente, no final do mês. Ele que a aguardasse! Estaria lá, “colada que nem boca de bode!”. Faria tudo de novo. Teria que encontrar o doidivanas vaporoso. Um dia ainda “tiraria o pé da lama”. Pediria a ele uma ajuda para terminar o “puxadinho”. E por que não, também, para subir a laje? Pediria sim, pois, como diria o grande “neurolingüiça” Lair Ribeiro: “Quem não se comunica, se trumbica”.