Coluna de Teatro
Bertolt Brecht, desenho de Rafael Calazans
Fazer teatro na Bahia
Um trabalho de Sísifo.
O espetáculo teatral quando é bom é ótimo, mas quando é ruim é insuportável!...
O teatro para mim começou no circo, ainda criança ficava fascinado com os dramas, comédias e pastelões apresentados pelos circos mambembes que aportavam no interior do Brasil. Nada, nada, nada se igualava ao prazer de assistir àqueles espetáculos:
“Coração Materno”, “A louca do Jardim”, “E o mundo não me quis...”, “Sansão e Dalila”, “Marcelino Pão e Vinho”, “O palhaço e A casa mal-assombrada” e todos os contos dos Irmãos Grimm. Todos feitos com muita improvisação, nonsense, alegria, descontração, estranhamento, concentração, despojamento, distanciamento (o ponto), talento, vocação, despudor e um amadorismo no sentido lato da palavra. Tudo,tudo, tudo que é preciso para o desenrolar de um espetáculo estava ali,lá, acolá, de fato. Tudo que vim apreender sobre teoria teatral brechtiniana estava lá no circo. Hoje muito dessas experiências encontramos no teatro de Suassuna, nas canções de Caetano e em alguns grupos de teatro como o Galpão. Neles está a essência do ser artista, sem subterfúgios, sem máscaras e quando as têem, essas, são mostradas ao espectador. Tudo gira em torno da simplicidade, pode não parecer, mas ser simples não é fácil. De hoje em diante comentarei alguns espetáculos teatrais aqui neste espaço, merda para todos!
Comentário:
O romance da Pedra do Reino ou o Príncipe do sangue do vai-e-volta de Ariano Suassuna
Faltou o humor Suassuniano na peça e no seriado...
Li o livro, assisti a peça e vi o seriado da Rede Globo. Confesso que gostei e gosto mais do livro. Penso que nem Antunes Filho, nem Luis Fernando Carvalho conseguiram captar toda a profundidade da obra de Suassuna, tudo bem que seria humanamente impossível, uma vez que, obra de fôlego (umas 800 páginas, coisa pouca!) onde o autor faz um levantamento criterioso da árvore genealógica e do arcabouço cultural do povo brasileiro de Dom Sebastião a Vargas, mas poderiam ter sido menos sérios (reverentes), menos sofisticados (didáticos) e mais populares (esqueceram a veia satírica do autor) na abordagem. O primeiro pecou pela escassez (resumo, do resumo, do resumo), ficando apenas com a Revolução de 30, deixando de lado toda a saga e discussão em torno do Brasil Império X Brasil República, a visão critica do autor em relação à literatura, em defesa da cultura nacional, assim como esquecendo toda a epopéia, todo o lirismo e toda a riqueza cultural do Nordeste implícita no livro. Fica Antunes devendo mais umas duas ou três adaptações do referido romance. Quanto ao segundo pecou pelo exagero na dose de surrealismo e fantasia impregnando o vídeo de imagens oníricas e confusas causando fadigas no espectador já no primeiro capítulo. Exagero de referências cinematográficas mundiais, criando um caos imagético inexistente na deliciosa prosa Suassuna. Em ambas as adaptações faltou o humor tão peculiar à obra do escritor, levaram-se muito a sério, talvez por se tratar de uma obra de tamanha envergadura onde o narrador-autor tem a pretensão de se igualar a Cervantes e diria que no livro ele consegue e às vezes até ultrapassa o romancista espanhol. No seriado somente encontramos vislumbres da veia satírica de Ariano nos personagens Clemente e Samuel interpretados de forma brilhante pelos atores baianos Jackyson Costa e Frank Menezes, respectivamente. Claro que tanto na peça quanto no seriado o elenco está superafinado e as direções são acima da média nacional. Louvável aproveitar quase na sua totalidade o elenco nordestino no seriado e no mais ficam Antunes Filho e Luiz Fernando Carvalho nos devendo adaptações a altura dos seus talentos e do grande Ariano Suassuna.
O livro(obra-prima) foi relançado numa nova edição e se encontra nas melhores casas do ramo ou, pasmem, na Biblioteca Pública da Bahia. A peça estava em cartaz no Teatro Sesc Consolação - sp sob a direção de Antunes Filho até o início de 2007, deve estar viajando pelo país e deve retornar num Teatro Sesc-sp. O seriado sob a direção de Luis Fernando de Carvalho passou na Rede Globo em Junho ou Julho de 2007 e deve sair em DVD.