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Celular? Danou-se !

Baiana que entra na roda e só fica parada...
Baiana que entra na roda e só fica parada...

Celular? Danou-se!





Na Vila de Murici, lugarejo litorâneo da Bahia, também banhado pelo rio Itapicuru, fronteira com Sergipe, a vida rastejava a passos de cágado...O dia parecia não querer terminar... Uma lerdeza de fazer dó, parecia que o sol ficava com preguiça de ir embora...E ficava, e ficava, e ficava, bocejando... Numa pachorra de fazer gosto, que deus-benza!
Quando à noitinha chegava, e a lua começava a clarear, aí, passava depressa...O povo daquele vilarejo dormia com as galinhas. Entre o cantar do galo da noite e o da manhã era um vôo de asas curtas, a noite voava nas asas do sonho. Ainda que um sonho breve, pois, naquele paraíso, os moradores tinham todo o tempo do mundo para sonhar de olhos abertos. E sonhar acordado era bem melhor!
Naquele rincão, havia de um tudo que um homem precisava para viver: peixes, verduras, frutas, praia, brisa, rede e mulher. O que mais o homem precisava? Nada, a não ser que ficasse doente, uma doença braba, dessas que o cabra definha e fica só o couro e o osso, porque se fosse coisa pouca, tinha erva e reza para tirar o quebranto. O povo daquelas paragens não adoecia, morria de velho, de velho e de teimoso. Vivia também de teimoso.
Pois bem, de repente, sem mais nem menos, o lugarejo foi invadido por uma ânsia de consumo, uma onda de modernidade e desenvolvimento, somente comparada às catástrofes do outro lado do oceano.
Primeiro, chegou a eletricidade fazendo com que o dia ficasse ainda mais longo e as noites muito mais curtas. Depois, a televisão mudando hábitos e costumes do lugar. Agora, “essa febre dos celulares, essa praga, essa epidemia”, exagerava um ou outro morador antiquado, gente que perdeu o bonde da história.
Naquela vilota de pouco mais de alguns viventes, com uma população que se contava nos dedos, onde todos se conheciam como a palma das mãos - vizinhos de parede e cerca! -, e que ainda se tratavam pelo apelido ou grau de parentesco : “Fulano, filho de dona beltrana e de seu sicrano ; aquela, a neta de seu fulano, casada com beltrano; aquele, o neto de seu sicrano, bisneto de seu beltrano”. E como se não bastasse conhecer o indivíduo, conheciam toda a árvore genealógica, assim como, profissão e localização, toda a vida do sujeito numa só tacada. Apesar disso tudo, naquele cafundó, todos queriam ter um telefone sem fio, qual a serventia do penduricalho? Só Deus sabe! Queriam as novidades da vida moderna, conforto, comodidade e por que não? Vídeo Cassete, “CDs Players”, “Disckmans”, DVDs, Ventiladores e até Condicionadores de ar, e por que não? Talvez, a brisa das árvores e dos coqueiros estivesse ficando muito lenta, fraca, ultrapassada, ora bolas!
Somente João Coco Seco, filho de Dona Honorina e de Seu Onofre, neto de Seu Ambrósio da Farmácia e alguns espíritos de porco, ficaram com um pé na frente e outro atrás, com a pulga atrás da orelha. Gente que só queria o atraso. Essa corja que estava, sempre, contra o progresso. Gente que não tinha o que fazer. Ficavam fiscalizando a natureza. Botando a boca no trombone :
- O que será que estava acontecendo com o povo desta cidadezinha, Jesus, Maria, José? Teriam enlouquecido? Queriam essas engenhocas e parafernálias para que, por quê? Para falar com quem? O quê ? Quem estaria por trás de tudo isso? Conjeturava e discursava com empáfia “Coco Seco” na barbearia para os companheiros de infortúnio.
- Antena parabólica? Dona Mariquinha, neta de Mané Piroca, quer por que quer uma antena parabólica. A coitada é pobre, o que planta mal dá para comer meio-dia. Ela o marido e a filharada, filhos em penca, que nem banana, o marido tem uma pensãozinha do Funrural. Apois, a mulher cismou de comprar uma antena parabólica. Diz que era porque onde morava, lá aonde o vento faz a curva, onde o Judas perdeu as botas, no roçado afastado daqui, a televisão dela não pegava o programa do Silvio Santos. Durma com um barulho desse!...
A conversa ficou animada, cada um tinha um “causo” acontecido.
- E Chica de Zé da mula que agora junto ao fogão a lenha, tem um forno microondas. Diz ela, que é para esquentar a mamadeira da bisneta de madrugada, e só. Diz que não sabe mexer naquele bicho, não. Que mesmo a neta dela, aquela Rosa de Heliódoro que namorou com Maneca de Dona Candinha, aquela, que é uma moça letrada e que estudou para o Magistério na capital da Bahia. Apois, ela diz num saber decifrar aquelas letras lá, não, de jeito e maneira!
- Ômi tu já viu como o povo daqui tá falando diferente? Perguntava com galhofa, Coco Seco a Mané barbeiro, filho de Seu Tiburcino do alambique, fazendo a barba (que coisa mais antiga, diria o povo modernoso do lugar, não conhece “Filipescheive”, não, não?).
- E num tô? É uma mistura de sergipano da beira do Itapicuru com um carioquês de Ipanema, de um baianês de novela com um paulistês do Brás, danou-se!
Danou-se e redanou-se, disse um poeta de cordel prosseguindo a cena
- E aí, Raimunda do Armarinho de Seu Nôzinho liga para a padaria de Maria Papuda de comadre Zefa e diz: “Hêlôôou! A Mary estarrr? Mary, my darling, a minha tía está pédindo uma baguettí e ôcho bisnagas de pão francês e mandou-me questionar-lhe a nível de curiosidáde, quais é as novidades que tu tens na RRRotisserrria?” Então, Papuda, imitando a atriz da novela das sete : “Baby, Caraca! Ela saiu do regime? Foi, foi? Não me díga que ela vai voltar a cair na broa de milho? Vai, vai?...”
Esse povo estava ficando tudo doido! Danou-se! Lamentava irônico e indignado João Coco Seco.
“Danou-se!” Agora, era a praga do celular. Todo lugar que se ia, tinha alguém pendurado no telefone sem fio fazendo pose na feira, nos botecos, na praia, no rio. Uns compravam até telefone de mentira. “Aquilo, era para fazer pose, não era possível!” Tocou o celular, o cabra atende e fica andando de um lado para o outro com ares de importante e olhando para ver se tem alguém olhando. Muitas vezes, o sujeito vizinho de parede e meia ligava para o outro e passavam horas tagarelando, até se encontrarem e cairem na gargalhada da modernagem, lá deles! Mas, rindo do quê?
Por quê? Para quê? Para falar com quem? Com o menino em cima do coqueiro, ora, bagos!
Danou-se!
Até mesmo Zé do bode, com as cabras, queria o dele. E os amigos caçoavam : “Pra quê Zé, tu quer celular, é pra ligar pros bode é? Bééé, alô aqui é o Zé, Bééé, o Zé dos bode, mé... méé, atende Barnabé e Barnabé: Bééé...”
“Pra tocaiar os bodes, oxente!, oxe...! Mas quá! Sacou? Se liga! Tá ligado?”
Como estava mudado o Zé do bode! Tinha que se modernar, acompanhar o prosseguimento da prosperidade tecnológica, dizia ele com empáfia.
Primeiro trocara o rádinho de pilha pelo “Walkman”, a TV comum com os canais de pobre, como ele gostava de dizer com bazofia, pela antena parabólica. Deixara de cantar embolada e agora só cantava RAP, Repe, sabia lá! Os amigos caçoavam dele dizendo que o único “rape” que conheciam era rapadura, cantasse ele um repente, “Cabrunco de Repe!” Ao invés de dançar o coco, estava dançando o “Breique”.
O povo da cidadezinha parecia estar enlouquecendo. Todos de celular pendurados e pendurados no celular, a meia porta, as casas umas coladas nas outras e o povo tocava a falar pelos cotovelos. Só conversavam, agora, sobre a novela, sobre as coisas que aconteciam no Rio de Janeiro e em São Paulo. Que nada, eles falavam era sobre o mundo , agora, eram cosmopolitas, globalizados, cidadãos do mundo.
Não viviam mais naquele atraso, pastando, sem eira nem beira, vivendo de brisa, de águas mornas e limpas, de sombra e água fresca, de jumento sem tração nas quatro rodas, não.
Não, ninguém queria mais viver naquele atraso de vida, de dormir cedo e acordar cedo, não.
Ficar respirando aquele cheiro sem graça do mar, sempre o mesmo cheiro, ou então, aquele cheiro de estrume, de verde, de mato. Não, agora, ninguém queria não.
Tinham aquele arzinho frio do ar condicionado, para quê melhor?
Ora as ruas cheiravam a gasolina, ora a gás de cozinha. Fumaça de óleo diesel, naftalina, cheiro de roupa nova, de coisa nova, a cada instante um cheiro diferente. Não precisavam mais ficar com as casas abertas, sentados na varanda contando estrelas. E nem tampouco contando lorotas, inventando histórias para matar o tempo. Acreditando em Curupira, Mãe-d’água e Mula-sem-cabeça. Tendo que andar nas ruas de noite para ter um dedo de prosa. Agora não, tudo ali pertinho, bastava apertar um botãozinho. O povo falava “unszonzoutros” até de parede meia pelo telefone sem fio. Não precisavam nem sair de casa, sair para quê? Tinham que ter cuidado, agora, com os assaltos como gostava de enfatizar o noticiário.
As casinhas todas gradeadas, umas gaiolinhas, tão bonitinhas!
Tinham uma fonte de água corrente e cristalina dentro de casa, claridade a noite toda e sem aquele mau cheiro horroroso do querosene. Para que sair?
Cuidar dos bichos e das plantas? Que coisa mais besta! Tudo vagaroso...
Agora não, era na velocidade da luz, do avião a jato, das caixas de sons dos automóveis, tudo pronto e mastigadinho. Cantigas prontas e ritmadas, em alto e bom som, não eram como aqueles cocorocós monótonos dos galos, aqueles sambinhas-de-roda fuleiros, aqueles cocos mal-ajambrados, aqueles violeiros desentoados, aquelas zabumbas desafinadas, aquelas aleivosias que o povo da roça estava acostumado e o povo da cidade grande caçoava, não . Agora era tudo chique, lá das estranjas. O vilarejo daqui “pa’pouco” já estava virando cidade, quem sabe nessa rapidez daqui uns dias, mais dias, menos dias, não viraria uma capital?
O prefeito já estava falando em trazer computador para as escolas. Informatizar todas as repartições, mas quais? Qual o quê! “Mateus primeiro os meus!” Isso estava cheirando a safadeza, com cara de mutreta! João coco seco duvidava, agora, até da sua própria sombra Trazer computador para um fim de mundo desses? Num lugar onde o povo mal sabe fazer um O com um copo? Trazer duzentos computadores? Só podia ser mutreta! E agora para completar estavam falando que aqui na vila os estrangeiros iriam construir um complexo hoteleiro. Danou-se!