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No Buzu I (Cidadãos?)

Pobre sofre!
Pobre sofre!

No buzu I (Cidadãos?)
Salvador, julho de 2004

Hora do rush! Que rache coisa nenhuma: hora do “salve-se quem puder”, do “pega-pra-capar”; ônibus lotado ziguezagueando pela buraqueira da cidade do Salvador, Bahia.
- Adoro andar de “Buzu”...Falou em alto e estridente som, um senhor franzino espremido entre a catraca, uma bunda carismática, e as axilas de um estudante leve e aflito.
O coletivo com “gente saindo pelo ladrão”, as pessoas espremidas sem ter onde colocar os pés. Caíram na risada...
- Calma! Não precisa me bater, não...Disse o “frangote” velho, esforçando-se para irromper à cena.
- Gosto não se discute, tem gosto pra tudo, disse com deboche uma senhora equilibrista cheia de pacotes.
Alheio ao rebuliço por ele provocado, entre sovacos e peitos, prosseguiu o diletante passageiro.
-...Às vezes, salto de um “buzu” para pegar outro que “esteje” mais movimentado...
- Gosta de fazer “terra”, hein, véio? Do “roça-roça”, hein, meu tio? Gracejou um gaiato que polidamente empurrava os demais tentando passar pelo “curral” entre apalpos e fanfarrices.
-...Outra coisa que eu gosto é novela, continuou o ancião sem se importar com a algazarra.
- Num “perdo” uma... Hoje “mermo” eu quero ver quando aquela disser àquele que aquele outro não é filho dele.
- E o filho dela é “viado”, viu, meu tio? Conjeturou o cobrador adorando não ser ele o alvo da chacota.
Gaitadas, frouxos de risos.
- E ninguém hoje liga pra isso: é homem virando mulher, mulher virando homem, disse o velho com muxoxo à senhora toda troncha ao lado, e prosseguiu em seu relato para toda a “patuscada”.
- Ô novela boa! Assisto todas, não “perdo” uma... Parecia provocar os outros passageiros.
- E a roubalheira... E a “violênça”? Alguém instigou da “cozinha”.
- “Inziste”, disse o velhinho acochado, mas feliz. A torcida veio abaixo rindo do seu vernáculo, como se os demais fossem bacharéis em Letras Vernáculas.
-“Inziste”, “inziste”,mas “inziste” mais nos “jornal”...
-...E se o moleque for se incomodar com as asneiras que os “jornal” diz... Retrucou uma senhora “muçiça” desacochando os ombros.
-...Você não “véve”. Treplicou filosófico e prosaico o “matusquela”: hoje eles “diz”, amanhã “desdiz”; “dispois”, embroma de novo...
O circo estava armado.
Um teatro vivo.
Cada um tinha uma opinião, um “causo”, uma lorota boa e o “buzu” serpenteando pelas ruelas, a frear bruscamente a cada ponto - de quinhentos em quinhentos metros -, num calor que mais parecia a geral da Fonte Nova, meio-dia a pino, em jogo de “Ba-Vi”.
-... “Leno” o jornal ou “assistino o noticiáro”, a gente acredita que o mundo vai se acabar amanhã... Que só têm ladrão e assassino...Que ninguém presta!...
- Só têm ladrão “mermo”, meu tio! Provocou um rapaz “bombado” pulando a borboleta aos trancos e barrancos.
- Ladrão e maconheiro...
Maconheiro e estuprador... Insuflou ainda mais um pagodeiro de “plantão” entre apupos e assobios. IIHRR...Tchuf...Tchuf...Tchuf...Tchu. Freio de arrumação!...
- Que o homem não tem salvação todo mundo já sabe, disse o estudante leve resfolegando do tranco e quase sentando no colo de uma freira.
-...É por isso que eu adoro andar de “buzu”, insistia o noveleiro embevecido com a assistência.
- Andar de “buzu” e novelas, não “perdo” uma...
Gargalhadas e galhofas.
-...Não “perdo” uma... Como é o nome daquela que tem aquele que fazia àquela outra? Perguntou ele, empolgado, para que todo o coletivo ouvisse e respondesse.
- “Tarzan e sua mãe macaca!”, debochou em falsete um “parrudo” no assento reservado a deficientes, grávidas e idosos.
- Cala a boca, corno!... Murmurou com voz de baixo profundo outro gentil passageiro, enfiando ligeiro a cabeça e o tronco para fora da janela.
Um ceguinho, no banco da frente, entoava canções de outros carnavais, indiferente ao alvoroço instaurado no coletivo, ora, desembestado ladeira abaixo.
- Dá-lhe! “Môtô”...Gritaram alguns incentivando o motorista “disposto”, gritos, assobios, deboches e o “buzu” saracoteando a chacoalhar aquele amontoado de gente sôfrega e serelepe.
- Irmãos!... Esbravejou, com voz rouca e esganiçada, um evangélico até então calado. O fim do mundo está próximo... Arrependei-vos!... Aquele que receber e aceitar Jesus estará salvo do fogodosinferno!Praguejou apopléctico.
Silêncio total na sauna móvel, os passageiros pareciam ter combinado tamanho mutismo.
- Pior do que esse apertucho num deve ser, confidenciou a senhora “muçiça” ao velhinho noveleiro...
- Só Jesus salva! O sangue de Cristo tem poder! Concluiu, peremptoriamente, o crente cuspindo todos à sua volta.
- Aleluia, irmão! Gritou um outro gaiato espremendo e empurrando educadamente quem estava à frente. .
- Mas, tem cada uma nesta terra, pensou em voz alta o estudante, aflitíssimo, desamassando os cadernos e fazendo força com os cotovelos para ter um pouco mais de espaço.
- Rapaz, você já viu como tem mendigo nesta cidade? Perguntou, com falsa revolta, um rapaz de touca “rastafari” a um outro de cabelo cortado qual sertanejo “pop”, lendo religiosamente à página policial.
- Isso é sacanagem dos motoristas, eles “tiram onda”, pra a gente pensar que eles têm bom coração, sacanagem pura, deixam entrar cada “esmolé” imundo, discursou rápido e com desdém o cabeludo à la “Chitãozinho e Xororó”, retornando à leitura meditabunda.
- “Ostro” dia entrou um todo sujo de óleo, a roupa encardida, imunda, fedia tanto que os “povo” tamparam o nariz, uma “inhaca” que “crendeuspai!”, quase mata todo mundo sufocado, falou uma baiana “roliça” entrando na conversa, se abanando com um folheto de piscinas e com o tabuleiro entre as pernas, enquanto o “Messias”, mais calmo, soletrava os versículos IV e V do profeta Isaías.
Um homem à beira de um enfarte puxava várias vezes a cordinha do sinal, “berrando”, porque o motorista havia passado do ponto, saiu dizendo um monte de palavrões e impropérios. Foi a deixa, da qual um senhor de óculos, com ar professoral, aproveitou para entabular conversa com um careca sentado ao lado.
- Ah! Os tempos agora são outros. Ninguém respeita mais ninguém. Eles não respeitam pai e mãe. Palavrões agora são vírgulas, preposições, pronomes, adjetivos, verbos, advérbios e o “caralho-a-quatro”. Santa ignorância!
- Isso é uma “puta” falta da “porra” do vocabulário, vaticinou o deficiente capilar erudito.
- “Chupa quem-lhe?” Perguntou uma voz de pato ao fundo, gargalhada geral.
Ihhrrr!... Freada brusca!... Burburinho.
Lá fora, no ponto de ônibus: a “justa”.
E o ceguinho impávido a cantarolar um bolero, acompanhado apenas pela bengala percutida ao chão do veículo e o tilintar das moedas noutra mão.
Eram os “hômis”. “Sujou”! Fim da pândega.
- “Desce! Todos os homens, um por um, averiguação”, ordenava com voz firme e imperial um pançudo policial em ronda, metralhadora em riste.
- “Desce” a tropa toda! Tangia o “comandante-em-chefe” da outra “armada até os dentes”.
“Positivo Operante”. “Positivo Operante”.Elementos suspeitos, câmbio!
- Que absurdo! Era só o que faltava, mas será o Benedito? Resmungou baixinho uma “potranca” empinando o seu carisma para trás, atropelando os suspeitos - negros na sua grande maioria -, a descerem enfileirados e cabisbaixos. Revista. “Bacolejo”. Averiguação.
“Positivo Operante”. “Positivo Operante”. Elementos suspeitos, câmbio!
- Que bobagem! Que burrice! Então se o ladrão roubasse a gente, ele ia ficar nesse aperto esperando a polícia chegar? Cambada de “bunda-mole!” Remoqueou revoltada e displicente uma estudante de dentro do ônibus.
Lá fora, todos encostados de frente para o coletivo, pernas abertas, sendo apalpados delicadamente por um singelo cassetete de pouco mais de um metro, quanta delicadeza! Nem mesmo o velho e o ceguinho escaparam da revista, muito embora o cego alheio à afronta, não se desse por rogado e continuasse a solfejar, agora, uma melodia de Caymmi relativa à escravidão.
Nada foi encontrado, nada. “Negativo Operante”. “Negativo Operante”.
Nada foi encontrado, enchendo de razão as mulheres que, ora, sorriam amarelo aguardando o retorno dos prováveis meliantes.
Quanta educação! Quanta cidadania!...
- Pobre sofre, falou por falar a estudante mascando chiclete e retocando a maquiagem.
Muitos desistiram da jornada, livres, alforriados. Livres não, em condicional, humilhados, banzos, titubeantes sobre qual o rumo tomar. Uns preferiram prosseguir a pé, outros trataram de mudar o itinerário, poucos, uma vez livres do duplo sufoco preferiram espairecer, talvez por medo, necessidade ou quem sabe vergonha.
Aqueles que não fizeram a baldeação seguiram mudos e sorumbáticos.
Ladeira acima, a marinete, então, sacolejava flácida com alguns “gatos pingados”, esmorecidos: parecia uma repartição pública após as três da tarde; morna, fria, quase deserta. Não mais bamboleava com volteios de um carro “Fórmula um”, somente tristeza e desolação, a lataria pesada, espaçosa, frouxa...
- Olha o picolé, olha o picolé, mulher bonita não paga, mas, também não chupa. Chupa toooda/ Toooda/ Chuuupa toooda/ Toooda... Mercava e cantava, um menino fouveiro que acabara de entrar, esfriando ainda mais aquele resto de percurso.
- Ô coisa bonita é briga de “mulé”, “cês viro” aquelas duas da novela? Pilheriou esmorecido o novelístico senhor para uma platéia absorta.
- Toda novela agora tem briga de “mulé”. Briga de “mulé” e casamento, não pode faltar, disse em desalento o assíduo telespectador encolhido entre ferros, plásticos e vidros, tentando reanimar, em vão, os ensimesmados passageiros.
Ora, o dialeto e a alienação dele, soavam comum aos demais, perdera a graça.
- Bom... A conversa “tá” boa, mas... Continuou o tagarela amenizando o tom folclorístico do amassadouro... Eu vou ter que “sartar”. Vou indo... Fui do verbo “ires”... Até mais ver... Não “perdam” hoje, viu?... É hoje que aquela vai dizer àquela aquilo lá, disse isso, descendo os degraus com dificuldade, “inté” mais vê!... Uns riram nostálgicos, outros macambúzios nem responderam ao remanescente da alegria.
Triste, a “lata velha” vagava, então, sem os malabarismos de outrora. Sonolenta, se arrastava larga e desolada, apenas o lamento nostálgico e o tilintar das moedas do ceguinho a remoçar o final da viagem.